terça-feira, 22 de março de 2016

The Witch

Direção: Robert Eggers, 2015.
The Witch, ou A Bruxa, conta a história de uma família que é expulsa da vila onde moram, e acabam tendo que viver ao redor de uma floresta misteriosa. A trama se passa por volta de 1600, em uma região da Inglaterra, numa época onde várias pessoas acreditavam que Deus ainda era o centro do universo, e o fanatismo religioso predominava em parte do globo. Nesse vilarejo na Inglaterra não era diferente. A família em questão é expulsa de sua comunidade por motivos religiosos, e ainda e principalmente após alguns acontecimentos em seu novo lar, a religiosidade e a palavra de Deus falam mais alto que o próprio sangue e as relações familiares. 

Esse é o primeiro longa do diretor Robert Eggers, e ele conduz muito bem o suspense e a tensão do filme, além de sugar muito o talento do seu elenco; é um nome a ser observado. É um filme de gênero e de época, mas ao mesmo tempo nem um pouco genérico. Com uma enxurrada de filmes de terror que temos atualmente, The Witch é um suspiro de filmes que constroem uma tensão em cada cena, como The Shining (1980), por exemplo. Há várias cenas em que poderia haver grandes sustos e jump scares, mas o diretor optou por não mostrar isso, e com uma trilha sonora angustiante e takes de pura tensão é criado um clima de horror em nossas mentes, e em seguida a cena é cortada. O filme não mostra demais, nem menos, mostra numa exatidão para cada um compreender o filme da sua maneira, e não de uma maneira geral e genérica, porque quem dá sentido ao filme é quem os assiste. Então, se quiser ver um filme com grandes sustos no estilo The Blair Witch Project (1999) e The Conjuring (2013), esse não é um filme para você. Mas se você curtiu The Babadook (2014), The Gift (2015) e Goodnight Mommy (2015), The Witch merece ser visto sim.

Falando em cenas e takes, gostaria de destacar dois takes que me marcaram; um pela beleza e outro pela angústia. O primeiro envolve uma lua cheia e a silhueta de uma pessoa no centro, belíssimo, sem excesso; e o segundo envolve uma mulher e um corvo, com uma tensão criada anteriormente, esse take choca muito e dói. Aqui a filmagem é quase que exclusivamente feita com luz do sol ou de velas, o que aumenta o suspense, por não mostrar com exatidão algumas imagens. Ainda sobre, de certa forma, o visual do filme, é preciso observar a fotografia e figurino que estão impecáveis. A fotografia com a luz natural funciona muito bem, pois o filme se passa em alguma região da Inglaterra, e aqui no filme o sol não aparece; quando é dia está muito nublado, com uma iluminação fraca, aumentando a infelicidade e isolamento da família, onde é sempre cinza, e quando é noite, há apenas a luz das velas mostrando o pouco que nos é necessário para a construção do filme.

Não posso deixar de lado as atuações. A família é composta por seis pessoas, o pai (Ralph Ineson), a mãe (Kate Dickie), a filha mais velha (Anya Taylor-Joy), o filho do meio (Harvey Scrimshaw) e os gêmeos (Ellie Grainger e Lucas Dawson). Temos aqui dois atores experientes, uma jovem pupila e três crianças. Parece que quanto mais eu friso o quanto é difícil trabalhar com crianças, mais eu queimo a língua. No início do filme, achei o personagem do Harvey muito ruim, mas há uma cena em que ele está deitado onde ele dá um show de atuação para a sua idade, e os gêmeos são pouco aproveitados no início do filme, mas há uma cena em especial que a personagem da Ellie tem um destaque maior onde se consegue ver um talento a ser cultivado, e já para o final, os gêmeos tem uma ótima sintonia e funcionam muito bem como uma dupla. Mas o destaque fica realmente para Anya, que conduz o filme com uma ingenuidade mesclada com uma malícia em certos aspectos, uma bondade que por vezes é corrompida, mas tenta se redimir depois muito por conta da religião e seus pecados. Por ter um elenco tão jovem e atuando tão bem, creio o diretor tenha um dedo importante aí.

Mas é claro que o filme tem suas infelicidades. Por tratar de um tema envolvendo o fanatismo religioso, grande parte dos diálogos envolvem Deus, a Bíblia e suas passagens, e isso me incomodou um pouco, mesmo sabendo que faz parte do contexto em que o filme se passa. Há ainda a cena final que incomodou muita gente. Particularmente eu gostei, pois há uma grande margem interpretativa aqui, e refletindo algum tempo depois eu passei a gostar mais. (ALERTA SPOILER) No final, a personagem da Anya acaba matando sua mãe, sendo a última da família a sobreviver (supostamente), e esgotada, ela senta em uma cadeira e apoia sua cabeça sobre a mesa, provavelmente cochilando, e há um corte de alguns segundos. Se o filme acabasse assim, seria ótimo. Porém, ele continua em uma sequência onde a mesma acorda e se vende para o mal, fazendo parte de um ritual de bruxaria. Eu interpretei esse último final como um sonho (ou pesadelo) dela, e que o filme realmente terminou quando ela descansou então o ritual não passaria de mera imaginação. Por outro lado, a cena da venda dela para o mal, onde o bode interage com ela e o ritual todo, eu achei extremamente bem feitas e angustiantes.

A Bruxa, ou The Witch, não é um filme para todo mundo. Há uma enorme tensão do início ao fim que é construída a partir da escolha do diretor do que mostrar nas cenas em conjunto com a trilha sonora. Com atuações impecáveis, um figurino e fotografia excelentes, é um longa a ser observado e contemplado por seus vários pontos positivos, pecando em poucos aspectos.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Deadpool

Direção: Tim Miller, 2016.
Hilário talvez seja um adjetivo pequeno para esse filme. Um dos filmes mais aguardados de 2016 não é apenas um filme de super-herói. Aliás, seria Deadpool um super-herói? Nas palavras do próprio, não, mas para questões de rótulo sim. Ainda assim, não é só mais um filme de super-herói que Tim Miller nos apresenta. Deadpool é o primeiro filme deste personagem do Universo Marvel, que nos mostra a origem de seus poderes e suas intenções, assim como seu núcleo de relacionamento. Wade Wilson é um rapaz que descobre que tem câncer em vários lugares no corpo e pode morrer logo, até que um desconhecido entra em contato com Wilson e lhe oferece a cura desta doença, mas para isso ele passaria por uma experiência que lhe tornaria, talvez, um super-herói. Assim temos o filme de origem do Deadpool, e talvez o melhor da Marvel.

Esse é o primeiro longa de Tim Miller como diretor, e ele nos surpreende com uma colcha de retalhos com ótimas referências, grandes cenas de ação, e um Ryan Reynolds certeiro. Aos poucos você percebe algumas inspirações para Deadpool, como Kick-Ass (2010), com uma pegada de Guardians Of The Galaxy (2014), e várias referências da cultura pop como Star Wars e Adventure Time. O destaque cômico fica, é claro, para Deadpool, personagem de Ryan Reynolds, que brinca com o Universo Marvel, principalmente os X-Men, e com a própria carreira do ator, conhecido por participar de alguns filmes de super-heróis. Deadpool quebra constantemente a quarta parede, contando a sua história para o público e fazendo piadas, que funciona muito bem para este filme. O longa nos apresenta vilões caricaturescos, porém engraçados também, como o britânico e o russo malvados. É interessante observar o contraste entre Deadpool e Colossus (um gigante de aço), onde Deadpool utiliza todo o seu potencial sarcástico e tagarela, enquanto Colossus, sendo gigante e extremamente forte aparenta ter um perfil ingênuo e bondoso.

Aqui no Brasil, o filme recebeu a classificação para maiores de 16 anos, enquanto nos Estados Unidos a classificação “R”, proibido para menores de 18 anos. Essa classificação deve-se muito ao linguajar, as referências sexuais e a violência, porém não é tão pesado assim. Infelizmente o filme conta com algumas piadas machistas e homofóbicas que me incomodaram um pouco, mas por ter uma piada atrás da outra o filme não nos dá tanto tempo pra problematizar na hora. A tradução para o Brasil ficou legal até, mas com umas partes bregas, como a tradução de “ass” para “fiofó”, e algumas piadas intraduzíveis que só fazem sentido nos Estados Unidos mesmo. 

O ponto principal do filme é o humor. Mas não é só disso que Deadpool é feito. O longa conta com algumas cenas de ação bem bacanas, alguns cortes rápidos e câmera tremida que incomodam um pouco, mas em compensação tem algumas câmeras super lentas com aquela sacada de Deadpool que nos faz rir nas situações mais inusitadas. O romance do filme também é bem interessante, os atores tem uma sintonia muito boa e quando estão em tela nos fazem rir e abraçar esse relacionamento ao mesmo tempo. Deadpool quebra alguns paradigmas com algumas cenas sexuais não tradicionais para a sociedade heteronormativa em que vivemos, porém em seguida solta alguma frase machista que nos faz quebrar o encanto pelo personagem, durante um breve momento, pois o roteiro parece pequeno para tanta piada. Queria destacar ainda a cena inicial, uma super câmera lenta numa cena de ação com várias referências que nos fazem rir, abrindo o filme com chave de ouro. E também temos nesse longa, talvez, a melhor aparição de Stan Lee em filmes da Marvel.


Enfim, Deadpool talvez não seja o filme ideal para todas as idades, mas para aqueles jovens adolescentes que estão inseridos nesse mundo de heróis desde o primeiro X-Men do Bryan Singer em 2000, é uma aposta certeira de diversão com os amigos. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Oscar 2016: Melhor Diretor

           O Oscar 2016 está chegando, e com ele veio várias polêmicas, principalmente a questão racial na Academia e na indústria cinematográfica norte americana. Mas isso talvez seja assunto para outra discussão, porque é muito mais profundo, envolve muitas coisas que vão além do Cinema. Agora, gostaria de escrever sobre o prêmio de melhor diretor para esse Oscar: os indicados, o trabalho que eles realizaram e a minha aposta.

Começamos por Alejandro G. Iñárritu, com seu longa The Revenant, onde mais uma vez ele nos mostra que está muito afim de receber o prêmio. Vencedor do Oscar de 2015 com Birdman, esse ano ele nos apresenta novamente a alguns planos sequências muito bem elaborados, especialmente um no início do filme envolvendo uma batalha, e, além disso, o longa é tecnicamente muito bem feito, não sendo mérito total do diretor, mas sim de todos que o cercam e estão envolvidos na produção. O trabalho com os atores aqui é muito bem feito, novamente, especialmente com Leonardo DiCaprio, que de uns anos pra cá parece que não está mais fazendo filme atoa, mas sim demonstra todo o seu potencial de atuação quando o mesmo é bem dirigido.


Seguindo o nível grandioso de Iñárritu com The Revenant, temos George Miller com Mad Max: Fury Road. O adjetivo grandioso aqui se refere apenas para as questões de uso do CGI, maquiagem e planos abertos, não dando o sentido de ser melhor que os outros filmes, que são mais simples, porém contém uma grandiosidade singular. No mais novo Mad Max, George Miller comanda novamente um futuro distópico, conseguindo mesclar muito bem o CGI com efeitos práticos, o que nos leva a crer em tudo aquilo por mais irreal que pareça. Assim como The Revenant, Mad Max também é tecnicamente muito bem feito, a fotografia, maquiagem e a mixagem de som são excelentes. Mas temos aqui um filme de gênero, um filme de ação, no Oscar. Temos aqui um filme que foi lançado há quase um ano e as pessoas continuam falando dele, e muito bem. Um filme com uma personagem feminina muito forte, quebrando estereótipos, até da própria indústria. Ou seja, um filme de ação de uma franquia clássica dos anos 80, com uma protagonista mulher, lançado há quase um ano, e foi lembrado para essa premiação que tem fama de ser extremamente conservadora. Isso só nos mostra a grandiosidade (em todos os sentidos) deste filme, que trouxe uma nova face para um dos gêneros mais populares do cinema, e que certamente será lembrado por vários anos.


Uma das surpresas deste Oscar é Lenny Abrahamson com The Room, que é um filme que teve pouca divulgação e acabou ganhando a todos com sua qualidade. The Room é, talvez, o menor filme nesta categoria (no sentido de orçamento e bilheteria), mas nem por isso deve ser desmerecido. Abrahamson nos conta uma história extremamente delicada e difícil de ser digerida pelo público, comandando muito bem os seus atores, destacando Jacob Tremblay de apenas 9 anos que dá um show nesse longa. A construção do Quarto também é ótima, parecendo que o mesmo tem vida e é um dos personagens da história, além de ser extremamente claustrofóbico. É um dos diretores que muitas pessoas falam que entrou pela “cota” do Oscar, por ser irlandês e pouco conhecido (seu outro trabalho é Frank (2014), mas que já mostra uma autoria do diretor).


Para você que viu Anchorman: The Legend of Ron Burgundy (2004) e The Other Guys (2010), talvez note algumas peculiaridades de Adam McKay em The Big Short. O longa, pela sua sinopse parece não ser muito envolvente, e até tedioso e chato, e o que Adam McKay faz aqui não tem nada disso. The Big Short conta com ótimos atores, como Steve Carrel e Christian Bale, que interpretam personagens reais envolvidos com a bolsa de valores, Wall Street, investimentos e todo esse mundo das finanças que a grande maioria das pessoas não entende nada. O trunfo para não deixar o filme entediante está no roteiro bem humorado, na montagem e nas atuações. Há algumas cenas onde aparecem algumas pessoas conhecidas na cultura pop, como Margot Robbie e Selena Gomez para nos explicar alguns termos essenciais para o filme, e também existe a constante quebra da quarta parede pelo narrador da história, e que dá um tom cômico e agradável ao longa.


A simplicidade muito bem feita, tal qual os dois longas anteriores, há em Spotlight de Tom McCarthy. Novamente, pela sinopse pode parecer um filme tedioso e chato, mas extremamente pesado pela sua temática (investigação de pedofilia na Igreja Católica). Ao contrário de The Big Short, o longa não conta com alívios cômicos, mas sim há uma extrema tensão ao decorrer dessa investigação. É um roteiro muito bem trabalhado que não cansa o expectador e ao mesmo tempo não o entedia, o que dá um ótimo material para os atores, que estão excelentes; é, talvez, a melhor equipe de atuação do Oscar. McCarthy nos mostra como fazer um filme investigativo de ótima qualidade, digno de ser lembrado por muitos anos e com certeza uma referência no subgênero jornalístico.





           São esses cinco diretores que compõe a categoria de Melhor Diretor no Oscar de 2016. Como menção honrosa, gostaria de citar também os incríveis Quentin Tarantino por The Hateful Eight, Ryan Coogler por Creed, Danny Boyle por Steve Jobs e Todd Haynes por Carol. Para levar a estatueta deste ano para casa, eu gostaria muito que George Miller fosse premiado, e creio que será, pois o que mais se aproxima aqui é Alejandro G. Iñárritu, porém é necessário observar que o mesmo levou a estatueta ano passado também, então penso que academia não se curvaria a um diretor mexicano premiando-o dois anos seguidos. Ao mesmo tempo, não seria impressionante se Tom McCarthy ou Adam McKay vencesse, um pouco decepcionante talvez. Infelizmente, o que mais está distante é o irlandês Lenny Abrahamsom, mas que ainda faz um ótimo trabalho. Fica aqui então a torcida por George Miller, e a diversidade no Oscar.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Goodnight Mommy

Direção: Severin Fiala,
Veronika Franz, 2014.
Um thriller austríaco. O filme conta a história de irmãos gêmeos que moram apenas com sua mãe. No início do filme os irmãos estão brincando fora da casa, aguardando sua mãe que foi fazer uma cirurgia no rosto, porém, quando ela volta, há algo estranho entre eles. A mãe retorna com o rosto enfaixado e coloca novas regras na casa para um melhor repouso, segundo recomendações médicas, como as cortinas fechadas e o mínimo de barulho possível. Os garotos logo começam a desconfiar que ela possa não ser a sua verdadeira mãe, pois ela não mostra o rosto que está sempre escondido atrás das ataduras, e a partir daí o filme se desenvolve tensamente.

O longa tem uma ritmo e estética muito diferentes do que estamos acostumados com as produções dos Estados Unidos. É um filme de suspense com uma fotografia e direção de arte belíssimas, com ótimos planos abertos e uma iluminação que conversa com o filme e conosco em vários momentos. As cenas não são gratuitas; os elementos que as compõe são muito bem pensados para nos dar a dose certa de tensão, mistério e nos encaminhar para algum lado da história. História essa que tem dois lados conforme o filme se desenvolve: o lado da mãe e o das crianças. Você desliza por esses lados muito rapidamente, ora pensa que a mãe está certa, ora que os meninos.


O filme é lindo esteticamente, e também segue um ritmo lento que nos dá tempo para observar os detalhes das cenas, o que é muito importante. Existem poucos diálogos, a maior parte do tempo nós observamos a interação dos irmãos com suas brincadeiras dentro da casa e fora dela, e eles não conversam muito entre si e muito menos com a mãe que voltou tão diferente daquela cirurgia. Esse pode não ser um filme pra quem gosta de algo mais acelerado, com grandes sustos e sangue, mas para quem viu The Gift (2015) e adorou, aqui temos uma ótima recomendação.  A respeito das atuações, todas estão no nível ideal. Sempre acho complicado trabalhar com crianças, mas aqui os atores funcionam, com os poucos diálogos eles fazem um trabalho corporal bem interessante, conversando com os olhos, gestos, expressões faciais e com os silêncios. Há ainda um plot twist muito bem trabalhado, e que o longa nos dá várias pistas para descobri-lo. Temos aqui uma ótima produção, que é categorizada como um suspense, mas tem muito mais a nos dizer do que apenas um filme de gênero. É algo que trabalha com a psicologia, a agonia, o desespero, a tensão, o relacionamento familiar, e principalmente com o Cinema.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Room

Direção: Lenny Abrahamson, 2015.
Um drama psicológico existencialista. O longa conta a história de Jack (Jacob Tremblay) e sua Mãe (Brie Larson), que vivem num quarto minúsculo e o garoto não conhece o mundo fora disso (além do que vê na televisão, mas crê que tudo seja fantasia). Jack completou cinco anos, enquanto sua mãe está por lá há pelo menos sete, e o criou sozinha, o ensinando a ler, escovar os dentes, cozinhar, etc. O garoto, que não acreditava que havia um mundo fora do quarto, acaba se questionando e instigado pela curiosidade, topa fugir. Aos poucos, ambos começam a planejar a fuga do local para Jack conhecer o mundo lá fora, com árvores, cachorros, grama e seus avós.

Brie Larson, vencedora do Globo de Ouro 2016 como melhor atriz em filme dramático, e o jovem Jacob Trembley estão excepcionais nesse filme. Sempre me surpreendo com crianças arrasando nas atuações, e Jacob me lembrou um pouco de Noah Wiseman (The Babadook, 2014), porém com uma carga dramática maior e um material melhor para explorar sua atuação, principalmente pelo roteiro. O roteiro ajuda muito a construir a relação mãe-filho dos dois, que são muito próximos, e junto com as atuações fazem você comprar a história de amor, amizade e companheirismo dos dois, é muito crível. Há ainda diálogos (e monólogos) existencialistas, do garoto se perguntando sobre o mundo lá fora e de como ele via o mundo como seu quarto minúsculo. Outro ponto interessante a ser observado são as cenas no quarto, extremamente claustrofóbicas, sujas, feias, com uma pequena abertura para a luz do sol entrar, dando um contraste entre o mundo lá fora e o quarto.


O longa tem uma carga dramática muito grande, com algumas partes tensas, outras alegres e até fofas, porém o que mais impacta são as partes trágicas. Várias cenas me fizeram chorar, tanto de alegria quanto de tristeza, pois o filme nos traz uma montanha russa de emoções, e quanto mais você se encanta pelos personagens e a história deles, mais você é atingido com as consequências do nosso mundo para aquelas pessoas que estiveram isoladas há tanto tempo. Atuações e roteiro juntos, com uma ótima direção, fazem desse um dos melhores filmes do ano passado, com uma nota dez, não poderia ficar de fora das premiações desse ano.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Bicho de Sete Cabeças

Direção: Laís Bodanzky, 2001.
Um drama psiquiátrico nacional. O filme conta a história de Neto (Rodrigo Santoro), um jovem que não tem uma ligação forte com seus pais, e junto com seus amigos acaba se envolvendo com maconha. Como a convivência em casa não é muito boa, algumas brigas acabam acontecendo, até que seu pai (Othon Bastos) descobre um cigarro de maconha junto com as coisas de Neto. O pai, conversando com a família para procurar uma solução para o caso, acaba internando o jovem num hospital psiquiátrico, pois segundo ele (e a mídia) a maconha era uma droga viciante e que a partir dali a situação só pioraria.

O longa é ótimo, porém conta com algumas situações familiares para quem conhece outras obras sobre hospitais psiquiátricos, principalmente One Flew Over The Cuckoo’s Nest (1975) e Girl, Interrupted (1999). Algumas cenas, diálogos e personagens remetem bastante ao longas citados anteriormente, o que propõe uma falta de originalidade, mas aqui trata-se de uma adaptação de um livro (Canto dos Malditos), que por sua vez é baseado em acontecimentos reais, ou seja, são situações recorrentes nos hospitais psiquiátricos tanto no Brasil como no exterior, infelizmente. As atuações são muito boas, com Rodrigo Santoro decolando no cenário nacional, mas gostaria de destacar também o personagem de Gero Camilo, um interno do hospital.


A familiaridade do filme é encoberta pela originalidade da direção e sua adaptação para o cenário nacional. Interessante observar algumas críticas feitas sobre a relação da juventude da virada do milênio com seus pais e a escola, o vício e as maneiras como são entendidos pela mídia e sociedade, a diferença (ou não) entre droga e remédio, a superlotação, e principalmente os cuidados e a situação dos internos nesses hospitais psiquiátricos, o modo como é feito o tratamento. E afinal, um tratamento para quê? O Bicho de Sete Cabeças tem uma temática forte, um pouco familiar porém com reflexões pertinentes na nossa sociedade e de suma importância, com uma nota 9, é um dos grandes nomes do cinema nacional.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Spotlight

Direção: Tom McCarthy, 2015.
Um drama investigativo baseado numa história real. O filme conta a história de um grupo de jornalistas de Boston que busca descobrir e denunciar casos de pedofilia dentro da Igreja Católica. O caso aconteceu em 2002, mas desde décadas atrás existiram denúncias contra membros da Igreja, que acabaram sendo abafados, não ganhando destaque algum. Essa equipe investigativa, denominada “Spotlight”, é vinculada ao jornal “The Boston Globe”, e acaba descobrindo milhares de documentos a partir desses casos abafados, além de outras pesquisas e entrevistas com pessoas ligadas aos casos.

A equipe “Spotlight” é pequena, mas tem um elenco de peso, com Michael Keaton, Mark Ruffalo e Rachel McAdams como jornalistas principais. Ótimas atuações de todo o elenco, cada um com suas peculiaridades e personalidades: Keaton faz o líder da equipe, com mais experiência no campo; Ruffalo faz o jovem jornalista sonhador e empolgado com o trabalho; McAdams faz uma ótima profissional, um meio termo entre os dois anteriormente mencionados. Aqui, o trunfo do filme é realmente o roteiro. Por ser um drama investigativo, o longa conta com muitos diálogos, descobertas, pesquisas, entrevistas, etc. Não é algo divertido, cômico ou algo do gênero, mas sim uma investigação com descobertas muito relevantes e um tema que nos impacta e é muito atual. São duas horas baseadas nisso, o que pode parecer ser algo monótono e cansativo, mas cada descoberta tem um peso grande e o quebra-cabeça montado é gigantesco.


Inevitável não falar da crítica à Igreja Católica. Não há crítica na fé de cada um, na religião, nos Deuses, mas sim nas pessoas que compõe essa Igreja, que acoberta os crimes, na hierarquia do clero, na sociedade que é enganada com tudo isso. Vemos que a pedofilia na Igreja não são casos isolados ou “maçãs podres”, mas sim algo constante e passível de estatísticas assustadoras. Vemos os jornalistas que tentaram investigas os casos antes, mas que a Igreja conseguiu os calar de algum modo. E vemos, finalmente, a investigação que ligou todos os pontos, que pegou “casos isolados” e juntou-os, mostrando ao mundo o quão suja é a Igreja o que ela faz para acobertar a pedofilia. E o pior de tudo: é real. E o longa não trata os jornalistas como heróis nem algo do tipo, apenas profissionais com uma gana muito forte em juntar as peças, e que acabam tendo várias dificuldades para chegar ao fim, assim como acontece na vida real. O filme nos mostra os dilemas e os empecilhos na vida de um pesquisador, investigador e jornalista. Com uma grande direção, ótimas atuações e um roteiro impecável, é uma forte indicação aos prêmios da academia. Nota dez para Spotlight, merecidamente.