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segunda-feira, 26 de março de 2018

Pixote: A Lei Que Matou O Mais Fraco

Direção: Hector Babenco, 1980.
Fernando Ramos da Silva foi assassinado pela polícia em 1987, sete anos após estrelar Pixote, A Lei Do Mais Fraco (1980, Hector Babenco), quando tinha doze anos. Com dezenove, com uma mulher, uma filha pequena e um rosto marcado pelo crime, Fernando foi executado com oito tiros à queima roupa.

Babenco, argentino de nascimento mas brasileiro de coração, é reconhecido internacionalmente pelo Beijo da Mulher Aranha (1985), sendo indicado para quatro Oscars (inclusive melhor Filme e Direção). Em território nacional, Héctor é mais conhecido pelo longa Carandiru (2003), que retrata um pouco dos últimos dias de um dos mais emblemáticos presídios brasileiros. Carandiru herda bastante da bagagem de Pixote. Quando criança, Pixote foi apreendido e levado para um reformatório, e lá conviveu com muita gente que não encontrou outra oportunidade para sobreviver além do crime. Nesta sua nova moradia, o garoto fez amigos, brincou de assaltar bancos e usou drogas que entravam facilmente no estabelecimento. Pixote, assim como muitas crianças brasileiras da década de 80 e de hoje, conviveu com referências e exemplos ruins, e isso marcou a sua vida dali em diante.

Um dos amigos de Pixote era Lilica, um rapaz homossexual com quase 18 anos, que já possuía uma história nas ruas de São Paulo. Após certos acontecimentos, Pixote, Lilica e mais dois colegas conseguem escapar do reformatório e passam a viver nas ruas. Mas o que 4 menores de idade poderiam fazer para sobreviver? Roubar, claro, já que ninguém olha nem olhou para eles. A Lei do Mais Fraco consegue retratar bem a marginalização das zonas urbanas no Brasil, e toda a crueldade que reside nelas e nos reformatórios. Crianças pobres, abandonadas pela humanidade, vivendo num presídio-mirim, como se a turbulenta transição que nossos corpos sofrem entre a infância e a adolescência já não bastasse, o convívio com autoridades que só os colocam no chão piora tudo.

      Não poderia passar em branco a linda mensagem de Lilica, "O que poderia esperar uma bicha da vida?", quando desabafa para seus amigos sobre ser um maior de idade, homossexual e sem uma estrutura de vida fora das ruas. O filme ainda tem a ilustre presença de Marília Pera, no papel de uma prostituta-mãe para Pixote.


Direção: José Joffily, 1996.
Dezesseis anos após Pixote, A Lei do Mais Fraco, e quase dez anos após a morte de Fernando, o diretor José Joffily traz uma obra de ficção tentando contar um pouco da história do garoto, desde o início de sua fama com Pixote, até o seu trágico fim. O menino foi da sombra à luz, conquistando o patrimônio de uma casa para sua família com o que rendeu do filme de Babenco. Conseguiu alguns trabalhos pequenos no cinema e na TV após a fama, mas nunca engajou uma sequência grande de trabalhos, muito por conta da sua falta de dedicação e por ser semi-alfabeto, tendo dificuldade para decorar os textos.

"Por se tratar de um filme de ficção, foi feita uma dramtatização de alguns personagens e acontecimentos.", é dito ao público ao final do filme. O que é bem visível com o desenrolar da história. Fernando vive  num local pequeno e pobre de Diadema, com sua mãe e irmãos: dois rapazes que ganham a vida fazendo pequenos furtos, assim como Pixote foi retratado em 1980. Tendo dificuldade em arrumar outro trabalho como ator, Fernando resolve seguir seus irmãos para conseguir dinheiro e colocar mais comida na mesa de casa, mas seu sonho de ser ator jamais morrera.

Ser ator como Pixote foi estava cada vez mais distante. Quando Babenco viu o olhar do pequeno Fernando no início dos anos 80, logo escolheu o garoto dentre mais de três mil crianças para protagonizar seu filme. Aqueles pequenos olhos castanhos, transmitindo toda a ingenuidade e encantamento que Pixote deveria ter, ao alto de seus doze anos, sem pai e com uma história dura para seguir. Com quinze anos, Fernando já estava grande demais para os papéis que seu agente conseguia, e seu caminho para a Calçada da Fama ficava cada vez mais longe.

      Com a dramatização criada para o filme, entra Cida, sua mulher e mãe de sua filha Jaqueline, que tal qual Pixote (e Fernando), crescera sem o pai. Por vezes o filme ganha tons de romance adolescente, com o baile onde os pombinhos se apaixonam, a primeira transa, os encontros no parque e até os desentendimentos. Mas com Fernando em Cida, suas brigas eram pelo envolvimento do garoto com seus irmãos, culminando em sua prisão. A dramatização também está muito presente no roteiro, com muitas frases de efeito como: "Quem nasceu pra ser Pixote, nunca chega a James Dean". E Dean persegue a vida de Fernando com suas jaquetas de couro, sua Juventude Transviada e sua morte precoce.

      "A vida imita a arte". Essa foi uma frase muito repetida quando o jovem Fernando morreu. Após várias tentativas e fracassos no mundo da arte, o jovem voltou a crime com seus irmãos, mas por conta de sua filha que estava para nascer conseguiu um emprego longe da vida do crime. Mas Pixote já nasceu marcado. Garoto da periferia sem pai, semi-analfabeto e com passagem pela polícia, Fernando correu quando viu a polícia indo atrás dele. Sem camisa e desarmado, os policias atiraram oito vezes para ter a certeza que Pixote jamais voltaria ao mundo do crime.

      Fernando morreu. Outros Fernandos morrerão nas mãos de policiais. Pixote ficou, chocou e marcou. A marca de suas mãos sujas de sangue ficarão no imaginário brasileiro, como uma Calçada da Fama para os esquecidos no Brasil.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Bingo: O Rei das Manhãs

Direção: Daniel Rezende, 2017.
Bingo é, provavelmente, o filme que melhor retrata um pouco dos anos 80 no Brasil.

Bingo também é, nada mais do que o palhaço Bozo, que por questão de direitos autorais tiveram que modificar o nome. O palhaço Bozo é uma criação norte-americana e que foi trazida pra cá no início dos anos 80, sendo um programa matinal que transmitia desenhos animados para as crianças. O que o filme nos traz é um recorte da história do Bozo no Brasil (que existiram vários), mais especificamente a história de Arlindo Barreto, um dos homens por trás da máscara.

É o filme de estreia na direção de Daniel Rezende, mas ele já fez excelentes trabalhos como montador: Cidade de Deus (2002); Narradores de Javé (2004); Tropa de Elite (1, 2007 e 2, 2010); The Three of Life (2011); e Robocop (2014). E em Bingo, ele fez questão de montar apenas o trailer, enquanto focava o longa todo em sua direção. Rezende traz uma direção bem pop para Bingo, algo que vimos com os já citados Cidade de Deus e Tropa de Elite, mas não visto em uma biografia ainda.

 A cultura pop brasileira dos anos 80 está nostalgicamente vibrante no filme. Até pra quem não viveu nessa década (meu caso) pode se encantar com as músicas, cores, figurinos e objetos da época. No meu caso, mesmo não vivendo a década, acabei incorporando um carinho imenso pelos anos 80, primeiramente na questão musical em casa (que havia uma coletânea da Som Livre com pop/rock nacional da década), e também por um trabalho realizado durante um ano letivo inteiro sobre os anos 80 (fui um dos responsáveis a falar sobre a música, além de dançar Michael Jackson, Menudo e o clássico Footloose).

Além de todo figurino brega oitentista e as cores neons que nos acostumamos hoje, a trilha sonora de Bingo é incrível. Incrível pois traz os anos 80 para o Brasil, e não com músicas gringas hispter. É o pop/rock nostálgico que toca nos bailes de reencontro, com Metrô, Dr. Silvana & Cia, Ritchie, Titãs e Roupa Nova. Música que, se fossem em inglês todo mundo adoraria e estaria no próximo Guardians of the Galaxy (2014 e 2017).

Talvez o ponto mais popular na cultura brasileira dos anos 80 seja a televisão. Enquanto o cinema nacional estava em queda, muito por conta da censura vinda da Ditadura e da violência aumentando nos grandes centros urbanos, o conteúdo vindo da televisão vinha crescendo. O cinema se sustentava com as pornochanchadas, que são filmes eróticos (não pornôs, como temos hoje), e a TV lucrava com as novelas de horário nobre. E Bingo acaba retratando esses dois lados do audiovisual brasileiro nessa década.

Arlindo Barreto, em Bingo virou Augusto Mendes (Vladimir Brichta), e foi um ator de filmes de pornochanchada, que o filme nos traz logo no início juntamente com a relação com seu filho. Após tentar alguns papéis em novelas, Augusto conseguiu passar nos testes e ser contratado para ser o Bingo num programa matinal. Porém, Augusto nem ninguém podia revelar a identidade do palhaço, sendo reconhecido somente com sua máscara (que seria o nariz, a menor máscara do mundo, segundo o finado Domingos Montagner).

A emissora líder de audiência pela manhã nos anos 80 era a Globo. Nosso querido Silvio Santos conseguiu importar o personagem Bozo para sua emissora, o SBT, e isso gerou uma enorme briga pela audiência nas manhãs da televisão brasileira. Bingo nos retrata um pouco disso: como Augusto reformulou o palhaço careta da gringa para o jeitinho brasileiro que estava com uma grande liberdade de expressão, algo que não se via em décadas. Augusto, tendo um filho da idade que assistia os programas matinais, sabia se portar diante da criançada, mas também era inovador e sonhador, que trouxe a interação com o público através do telefone e queria a todo custo passar a Globo no ibope matinal. Bozo, ou Bingo, trouxe também a já conhecida Gretchen (Emanuelle Araújo) para o programa infantil, dançando, seminua, para o Brasil inteiro de manhã.

Falando em crianças, já citei que Augusto tinha um filho, Gabriel (Cauã Martins), e Rezende explora bastante a relação de Augusto com ele. Pode ser bastante clichê (como a cena dois dos de carro da praia), e até forçada (como os diversos telefonemas em que o pai não atendeu), mas que foi importante para o personagem na vida real. Uma cena muito marcante do filme (e da vida de Barreto), foi uma ligação do filho para o programa, onde Gabriel diz que "você é o único pai que brinca com todas as crianças, menos comigo". Particularmente, eu gostei da relação, e principalmente da variedade de atuações do Vladimir Brichta, que consegue ir de um palhaço louco de cocaína para um pai atencioso e preocupado. Há também a relação de Augusto com a mãe, vivida em Bingo pela grandiosa Ana Lúcia Torre, que faz uma espécie de Norma Desmond (Sunset Blvd., 1950).



Com toda a fama e ibope que Bingo conseguiu, Augusto arrecadou muito dinheiro e acabou usufruindo de muitas drogas enquanto animava a criançada de manhã. É também um pouco clichê de uma biografia o protagonista sair do auge e cair num abismo de tristeza e desilusão. Mas ainda assim, mesclada com todo o contexto cultural paulista dos anos 80, o vício em cocaína de Augusto consegue retratar um pouco da loucura que foi esta década. 

Gostaria ainda de destacar algumas cenas em que Rezende e toda a equipe conseguem trazer um toque a mais na biografia do palhaço mais tenebroso que Pennywise. A primeira é no começo do filme, e já citei também, quando Augusto e Gabriel estão passeando pela praia e dão "zerinhos" com o carro (lembrando Os Cafajestes, 1962, de Ruy Guerra). Outra cena é o plano sequência de Bingo e toda a equipe de produção durante o programa: todo o jogo de câmera e coordenação dos personagens é algo que não vemos por trás das câmeras da TV. Mais para a metade do filme, com Bingo já nas drogas, temos um programa em que ele está alteradíssimo devido a cocaína, e coloca mais medo nas crianças que qualquer palhaço por aí. Rezende ainda nos trás uma simples, mas bonita tomada de Augusto, que após ter o conhecimento de sua demissão, vai embora da emissora coma as luzes se apagando enquanto passa: aqui, Bingo, de Augusto, adormece com as luzes. Quase finalizando o filme, Augusto surta em sua casa dando um belo soco em sua televisão, na qual refletia a imagem de Bingo em vez da de Augusto.

São cenas que, além do já mencionado Daniel Rezende, merecem o reconhecimento do grande de ator que é Vladimir Brichta. Passando por todos os fanfarrões e galanteadores (ainda assim, trazendo a essência) que já protagonizou, Vladimir vive Augusto em sua forma de pai e filho, e ele é a "porra do Bingo, caralho" (frase citada no filme lembrada num trailer/making off com Wagner Moura). Vladimir é a porra do Bingo, e o Augusto, e ainda dou graças a Netflix por ter segurado Wagner Moura mais um tempo, pois o personagem do Bingo foi escrito para ele. Brichta arrasa no papel, e é muito bom ser surpreendido por nomes que só vemos nas novelas.

O Rei das Manhãs traz um pouco da experiência do que foi os anos 80 no Brasil, e principalmente no que se refere a cultura pop, da música ou TV. E até para quem não viveu a década o filme funciona muito bem, pois representa um pouco do que foi a infância dos nossos pais. Ou até mais que isso, pois o programa louco do Bozo repercutiu em toda a nossa sociedade, e nos programas televisivos que encontramos nos anos 90. Hoje, realmente é impensável trazer um personagem nesse nível de volta para as crianças, até por isso que Patati e Patata deram certo, conseguindo conversar com as crianças sem preocupar os pais com piadas de baixo calão ou mulheres seminuas na tela.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Nise: O Coração da Loucura

Direção: Roberto Berliner, 2016.
Nise da Silveira foi uma das primeiras mulheres brasileiras formada em Medicina, e iniciou uma revolução na psiquiatria brasileira e o tratamento com pacientes em hospitais psiquiátricos, e o filme conta um pedaço de sua história. O recorte dessa história que nos é apresentado aqui é de um período em que Nise volta a trabalhar em seu antigo hospital, só que em uma nova função, pois se recusou a utilizar em seu ofício alguns métodos de tortura para uma possível cura dos pacientes. A data é 1944, e o local é o Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Rio de Janeiro, mais precisamente no Engenho de Dentro – guardem esse nome. Nise é resignada para o setor de Terapia Ocupacional, onde os pacientes eram colocados para fazer as tarefas de funcionários do local, como limpeza e manutenção do ambiente. Observando todos os problemas dali, a nossa protagonista inicia uma revolução no tratamento dos pacientes.
            
A história dessa mulher é imensamente importante para o Brasil, e graças a muitas pessoas é que temos, hoje, um filme de alto nível para nos contar um pouco sobre ela. Vemos na ficção, tanto cinematográfica quanto literária, um crescimento muito grande de personagens femininas fortes, e é muito gratificantes observar a história de uma mulher real vir à tona nesse momento, e ser tratada com tamanho carinho. Se ano passado nós tivemos Que Horas Ela Volta? sendo um dos grandes filmes brasileiros, Nise: O Coração da Loucura não fica atrás não. O diretor traz uma simplicidade e uma delicadeza de Nise mesclada com a brutalidade dos hospitais psiquiátricos da época. O hospital (e o filme) é retratado como sujo, cinza e fúnebre até a chegada de Nise, que tenta trazer aos poucos um pouco de cor, luz e vida ao local.

            Na década de 1940, era muito comum o tratamento de pacientes em instituições psiquiátricas ser através da força, tortura, eletrochoques, etc. E o filme retrata isso muito bem, trazendo como vilões os médicos, homens, brancos, ricos, que se preocupam única e exclusivamente em dar alta para seus pacientes, sem se importar com os meios para chegar nisso. No início do filme temos uma cena em que um paciente é tratado com eletrochoques numa palestra, e Nise é a única pessoa que se incomoda com aquilo, que se sente mal em ver alguém ser torturado, enquanto os outros médicos, homens, brancos, ricos, acham o método muito inovador e eficiente. Os homens querem se livrar de seus pacientes o mais rápido possível, finalizando o seu procedimento com a lobotomia, e a mulher só queria que os pacientes fossem tratados como seres humanos, que apenas se comunicam de uma maneira diferente. Nise encontra na arte uma maneira de entender seus pacientes (ou clientes, como é colocado no longa), e seus clientes encontram na arte uma maneira de se comunicar com o mundo e reorganizar suas vidas. O hospital nos traz personagens secundários muito interessantes, artistas, pintores e mais do que isso, grandes pessoas que só precisavam de compreensão e compaixão.

            Nossa protagonista é interpretada pela excelente Glória Pires, que não surpreende, pois já é uma grande atriz, e novamente apresenta uma personagem forte, profissional e ao mesmo tempo carinhosa, humana. Nise foi real, seus clientes também, e as obras que eles deixaram vão além da realidade, partem para a irrealidade por conseguirem, após tanto sofrimento e invisibilidade, extrair de seu interior cores e traços que parte do caos completo até a pureza da natureza. Obras atemporais produzidas no Engenho de Dentro, não o hospital, mas sim o interior do ser, o coração em sintonia com o cérebro.

            Nise: O Coração da Loucura é um excelente filme que merece ser visto por todos. É delicado e brutal, mas vai além: é puramente humano. Trata do inconsciente humano, que é um tema extremamente complexo, de uma forma natural, compreensível. Nise da Silveira merece ser conhecida e reconhecida, sua história merece ser lida, e esperamos que esse longa converse com outras pessoas para revolucionar seus corações. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Bicho de Sete Cabeças

Direção: Laís Bodanzky, 2001.
Um drama psiquiátrico nacional. O filme conta a história de Neto (Rodrigo Santoro), um jovem que não tem uma ligação forte com seus pais, e junto com seus amigos acaba se envolvendo com maconha. Como a convivência em casa não é muito boa, algumas brigas acabam acontecendo, até que seu pai (Othon Bastos) descobre um cigarro de maconha junto com as coisas de Neto. O pai, conversando com a família para procurar uma solução para o caso, acaba internando o jovem num hospital psiquiátrico, pois segundo ele (e a mídia) a maconha era uma droga viciante e que a partir dali a situação só pioraria.

O longa é ótimo, porém conta com algumas situações familiares para quem conhece outras obras sobre hospitais psiquiátricos, principalmente One Flew Over The Cuckoo’s Nest (1975) e Girl, Interrupted (1999). Algumas cenas, diálogos e personagens remetem bastante ao longas citados anteriormente, o que propõe uma falta de originalidade, mas aqui trata-se de uma adaptação de um livro (Canto dos Malditos), que por sua vez é baseado em acontecimentos reais, ou seja, são situações recorrentes nos hospitais psiquiátricos tanto no Brasil como no exterior, infelizmente. As atuações são muito boas, com Rodrigo Santoro decolando no cenário nacional, mas gostaria de destacar também o personagem de Gero Camilo, um interno do hospital.


A familiaridade do filme é encoberta pela originalidade da direção e sua adaptação para o cenário nacional. Interessante observar algumas críticas feitas sobre a relação da juventude da virada do milênio com seus pais e a escola, o vício e as maneiras como são entendidos pela mídia e sociedade, a diferença (ou não) entre droga e remédio, a superlotação, e principalmente os cuidados e a situação dos internos nesses hospitais psiquiátricos, o modo como é feito o tratamento. E afinal, um tratamento para quê? O Bicho de Sete Cabeças tem uma temática forte, um pouco familiar porém com reflexões pertinentes na nossa sociedade e de suma importância, com uma nota 9, é um dos grandes nomes do cinema nacional.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Experimenter

Direção: Michael Almereyda, 2015.
Um filme biográfico sobre o psicólogo Stanley Milgram. O filme conta a história, a partir da década de 1960, de Stanley Milgram (Peter Sarsgaard), um psicólogo formado em Yale reconhecido por pesquisas e testes de obediência. O mais conhecido desses experimentos é constituído por três pessoas, uma aleatória e duas que integram a equipe pesquisadora. É um teste de obediência à autoridade, onde temos um integrante da equipe como o criador do teste, outro integrante como o “aluno”, e o sujeito aleatório como “professor”. O teste consiste em o “professor” ler para o “aluno” alguns pares de palavras, um substantivo seguido de adjetivo, de uma vez, e depois ler apenas uma palavra e o “aluno” tem que completar com a outra palavra, basicamente um teste de memória, e a cada erro o “aluno” leva um pequeno choque de 45 volts que vai aumentado de erro em erro. O “aluno”, sendo integrante da equipe pesquisadora, não leva choque algum, apenas emite sons de dor para que o “professor” pense que é real, pois cada um está em uma cabine e não se veem, e quem aplica os choques é o próprio “professor”. Então há esse dilema: o sujeito continuará aplicando os choques no “aluno” mesmo com os gritos de dor, obedecendo assim o pesquisador chefe, ou ouvirá mais os gritos de dor e não aceitará a continuidade da pesquisa? Além desse experimento, há outros testes comportamentais e de obediência que o filme nos mostra, alguns antiéticos e controversos.


Peter Sarsgaard narra a história do psicólogo para o público, quebrando a quarta parede o filme todo, com muitas explicações dos acontecimentos e algumas partes mais técnicas da psicologia que o público não é obrigado a saber. Há ainda algumas cenas com chroma key muito forte, mas propositalmente, parecendo algo caricaturesco que remete à seriados e filmes da década de 1960, mas que são de certa forma interessantes. É uma narrativa um pouco cansativa pelo excesso de explicação e a quebra constante da quarta parede, que chega a incomodar um pouco. Em certa parte do longa, considerei que poderia ser dirigido e protagonizado por Woody Allen. Creio que o trunfo do filme não seja pelos aspectos técnicos, mas sim pelas reflexões que esses experimentos nos trazem, acerca da filosofia, psicologia, obediência, rebeldia e convívio social. Algumas respostas o filme nos dá pela própria narração, infelizmente, pois Milgram escreveu um livro sobre os resultados do experimento e nos responde algumas perguntas que ele mesmo nos fez anteriormente. Porém, não deixa de ser um filme interessante e que nos traz algumas reflexões necessárias sobre o ser humano, sua natureza e a sociedade que nos envolve a cada dia. Considero um filme 8,5, muito por conta dos aspectos de questionamento que nos apresenta.