quarta-feira, 26 de abril de 2017

Central

Documentário. Dirigido por Tatiana Sager, 2017.
Um documentário brasileiro dirigido por uma mulher,  que relata um pouco da vivência dos detentos do presídio Central, em Porto Alegre, e do complexo esquema que é mantido para ele ficar de pé.
Importante para caralho, o documentário traz uma mescla de Carandiru (2003), Tropa de Elite (2007) e alguns traços de Orange Is The New Black (2013-), mas com entrevistas reais de promotores, juízes, ex-detentos e policiais que lá trabalham. Enquanto as outras obras citadas são ficções baseadas numa realidade, Central, sendo um documentário, tem outro propósito: tem um compromisso maior com a realidade. Aqui já caberia um debate sobre o que é a verdade, a realidade, se ela existe, ou o que existe são apenas fragmentos de histórias.... Enfim, as entrevistas e imagens de dentro do presídio, de forma documental, corroboram com a realidade (ou parte dela) do Central.
Há quase dez anos o presídio foi considerado como o pior do Brasil pela CPI do Sistema Carcerário, e agora, 2017, após um começo de ano turbulento por conta por conta das rebeliões em presídios pelo Brasil, esse documentário é lançado, nos mostrando um pouco do contexto em que essas rebeliões aconteceram. Não é esse o propósito dele, mas dá para fazer essa ponte claramente.
Com as entrevistas, o documentário traz várias reflexões para nós, que já são feita por alguns, mas outros ainda não enxergam outras visões de mundo. Do início ao fim, Central nos é apresentado como um local para abrigar o que a sociedade rejeitou, um local de exclusão dos pobres, pois jamais uma pessoa rica, de bens e posses, ficou encarcerada lá dentro (vide depoimento de um teólogo). Porém, essas pessoas são fruto dessa mesma sociedade que os rejeita, e algumas pessoas não enxergam ou ignoram isso.
Em várias partes do documentário é falado que nenhum preso que entra ali sai para se ressocializar com o mundo: uns vão para a internação pelo uso de drogas, alguns tentam encontrar um emprego, mas encontram dificuldade em serem aceitos por carregarem o sobrenome “Ex-Detento”, e outros ainda voltam direto para o crime, pois possuem dívidas com as facções criminosas do Central.
É de conhecimento geral, por meio de investigações e relatos, que o crime organizado no Brasil possui esquemas e acordos com o Estado, ou com os agentes que o servem, como a polícia. Aqui no documentário, essa informação só é negada pelos próprios policias, pois se confessassem eles estariam sendo cúmplices do crime organizado. E é assim que o Central funciona, com as facções agindo dentro e fora dele, e a polícia servindo ao Estado e ao Crime (deixando entrar dinheiro, celulares, drogas.... quando lhes convém).
Detentos que vivem como lixo humano, expostos ao esgoto, com alimentação inadequada e falta de espaço físico: um presídio que era para comportar menos de dois mil homens, possui quase cinco mil ao todo. Com falta de verba do governo para a manutenção do Central, para comida e equipes de saúde, as facções dão o seu jeito de conseguir alimento e a própria segurança de seus membros.
O Central ficou bem conhecido no Brasil na década de 1990, por conta de inúmeras fugas e rebeliões que ocorreram nele, tendo até um trecho de uma rebelião com reféns no documentário, que chega a ser assustador quando estamos acostumados com cenas daquelas apenas na ficção. Anos depois, as rebeliões, fugas, mortes e torturas dentro do presídio diminuíram drasticamente por conta de acordos feitos entre as facções. Contudo, as mesmas facções que comandam as ruas estão no Central também, e as dívidas adquiridas dentro dele serão cobradas lá fora, para não “chamar muita atenção” da população e das autoridades para dentro do presídio.
São informações que muitos já conhecem, vindas muitas vezes da ficção, como as obras citadas no início, e que aqui ganham muito peso por estarem sendo corroboradas com relatos e testemunhos de quem vivencia ou vivenciou um pouco daquela realidade. Além dessas que abordei, o documentário traz muito mais sobre o dia a dia dos seis pavilhões que compõe o presídio, e as conexões das facções do Central nas ruas e no próprio presídio.

Central é sobre um único presídio, mas que tem muito em comum com o Brasil todo. Gostaria ainda de deixar uma frase que finaliza o documentário: Só os fortes sobrevivem, pros fracos não dá tempo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Lua em Sagitário

Direção: Marcia Paraiso, 2016.
Lua em Sagitário é um filme que pode incomodar muita gente, mas não pelos mesmos motivos. Esse longa nacional conta a história de dois jovens que vivem na divisa de Santa Catarina com a Argentina, mais precisamente na região de Princesa, uma cidade do interior, pequena, onde todos se conhecem e não pega muito bem o sinal de celular e internet. Os jovens são Ana (Manuela Campagna) e Murilo (Fagundes Emanuel), que se conhecem na Caverna, um estabelecimento regido por um argentino amante de rock e com muita história para contar. A Carverna é um misto de lan house e sebo de discos e livros, um espaço que serve como refugio para os adolescentes, também amantes de rock. A história mescla entre um romance adolescente e um road movie, pois Ana e Murilo se apaixonam, e num certo momento resolvem viajar de moto de Princesa até Florianópolis, a fim de chegar ao evento musical Psicodália, que acontece no norte catarinense.  


      A direção do filme é de Marcia Paraiso, que tem em sua carreira alguns documentários contam com estado catarinense como plano de fundo, como o Terra Cabocla (2015), que aborda a Guerra do Contestado (1912 - 1916), e que há uma profunda ligação com Lua em Sagitário. No longa de 2016, o personagem de Murilo vive num assentamento do Movimento dos Trabalhores Rurais Sem Terra (MST), e frequenta a cidade de Princesa por conta da Caverna, e lá conhece Ana, por quem se apaixona. A Guerra do Contestado foi uma luta por terras, assim como a luta do MST atualmente (não apenas por isso, mas há ai uma ligação nos trabalhos da diretora). 


      Infelizmente o filme conta com vários problemas, e o principal deles é o elenco. Em muitos longas, às vezes um ator pode salvar um filme, mas aqui não há ninguém qualificado para isso. Campagna e Emanuel são atores jovens, que não tem muito o que nos oferecer ainda, e por várias vezes nos deixam com um ar de que estamos vendo algum capítulo de Malhação, porém, em uma ou duas cenas Campagna se destaca um pouco mais e nos encanta. O roteiro também poderia se aprofundar em muitos temas, mas acaba focando no romance dos dois (que talvez seja uma escolha da direção até), e mesmo assim há vários diálogos bobos e desnecessários, mais uma vez dignos de Malhação. O filme conta também com Jean Pierre Noher no papel de LP, o dono da Caverna, que cumpre muito bem o seu papel de roqueiro old school e mentor dos jovens. Há também a participação de Serguei e Elke Maravilha - esta em seu último papel na carreira. 


      A trilha sonora de Lua em Sagitário pode incomodar também. Parece que pegaram uma playlist de músicas nacionais indie-hipster e um pouco de rock argentino, como O Teatro Mágico, Mallu Magalhães, A Banda Mais Bonita da Cidade, Tulipa Ruiz e El Mato A Un Policia Motorizado. No fim das contas, algumas músicas acabam casando bem com as cenas, como a Canção da Terra do Teatro Mágico, que toca quando estão num assentamento do MST (O latifundío é feito um inço que precisa acabar, romper as cercas da ignorância que produz a intolerância, terra é de quem plantar), e Só Sei Dançar Com Você da Tulipa Ruiz, que toca quando estão transando (Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz). 
  
      Mas o que mais pode incomodar as pessoas é a mensagem que o filme traz. Princesa é uma cidade pequena, na qual a maioria das pessoas é religiosa, todos se conhecem, e perto dela há um assentamento do MST, onde existem várias famílias que trabalham em conjunto, plantam, produzem artesanato, estudam e se divertem como qualquer pessoa, e vendem seus produtos para regiões próximas. A família de Ana possui um pequeno comércio em Princesa, pelo qual batalhou muito para conseguir, e o patriarca compartilha a opinião de muitas pessoas no Brasil: MST é tudo vagabundo que vivem as custas do governo, não querem saber de trabalhar. O longa não mostra muito do convívio no assentamento, porque não é o foco, mas do pouco que mostra também não romantiza o MST, apenas nos faz ver que são pessoas como todos nós, que trabalham para sobreviver mas de modo diferente, e que não comem criancinhas. Além disso, o filme conta com alguns diálogos sobre a classe média brasileira que se acha elite a vomita o preconceito que a elite tem com os pobres, e isso incomoda muita gente.  


      Lua em Sagitário tem um nome que não precisava (só na última cena nos é revelado o porquê do título, mas não convence muito), e pode incomodar muita gente, ou pelo elenco, ou pela trilha sonora, ou pela mensagem crítica. É também um filme que poderia ser muito mais do que foi, se tivesse um orçamento maior e não um apelo ao público adolescente. Ainda assim, é importante haver longas com uma reflexão social e que tente conversar com os jovens.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Don't Breathe

Direção: Fede Alvarez, 2016.
A tradução brasileira às vezes pode acabar com um filme ótimo. Poderia ter sido dessa vez, mas foi só mais uma tradução de título bosta. Don't Breathe poderia ter sido traduzido ao pé da letra que faria todo o sentido, mas O Homem nas Trevas é tão clichê que dá mais público, acontece. É mais um ótimo terror de 2016, tenso e violento, que não subestima o espectador e até nos surpreende com cenas tecnicamente bem feitas. 

O longa conta a história de três jovens que vivem em Detroit, cidade norte americana que declarou falência anos atrás (fato que por coincidência ou não torna a trama mais real), e ganham a vida realizando pequenos furtos em casas asseguradas pela seguradora do pai de um deles. Grande parte das pessoas da cidade foram embora dela, deixando-a com uma aparência de "cidade fantasma", o que de certa forma facilitava para eles na execução dos furtos. Porém, o pouco que levavam não era o suficiente para seus sonhos (como mudar de cidade), e após receberem a informação de haver cerca de 300 mil dólares na casa de um ex soldado cego , resolvem investir nele como se fosse o último furto de suas vidas.


      Sam Raimi (Evil Dead, 1981) resolveu apostar, faz alguns anos, no jovem Fede Alvarez, e juntos contam com três colaborações tendo Alvarez na direção: Panic Attack! de 2009; um remake de Evil Dead de 2013; e agora Don't Breathe. Parece que agora acertaram em cheio na produção, finalmente. Alvarez chega até a nos impressionar em algumas cenas, como num falso plano sequência quando os jovens entram na residência do ex soldado, e uma iluminação e edição de som que tornam o longa ainda mais tenso. Como o vilão do filme é cego, ele não precisa de luz elétrica, o que gera uma ótima cena no porão, porém ele tem uma audição aguçada, que é tanto um ponto fraco quanto forte, e me remeteu em certos aspectos ao bom Hush desse ano também.

A respeito das atuações, entre os jovens não há muito o que dizer, cumprem o seu papel apenas, tendo como destaque Jane Levy (Suburgatory, 2011 - 2014). O grande personagem do longa é Stephen Lang, que interpreta o ex soldado. Aqui ele constrói um vilão amedrontador, sério, afetado psicologicamente mas que acima de tudo sobreviveu a uma guerra. O que seria para ele três jovens invadindo sua casa? O medo do desconhecido, da escuridão, da violência e da morte: é a tensão que o filme nos causa. Há, além da tensão e do medo, muita violência: socos, tiros, marteladas e muito sangue. E um trabalho muito bem feito pela equipe de maquiagem. Mas apesar de tudo, é claro que o filme contém algumas falhas, como um número muito grande de balas numa arma e os famosos protagonistas sortudos, que conseguem repelir as balas em tiroteio. Com tantos pontos positivos, no fim dá pra relevar esses erros.

O ano felizmente está ótimo para o gênero de terror. Contamos com The Witch (que apesar de ser de 2015, estreou no Brasil esse ano), 10 Cloverfield Lane, Hush, e The Conjuring 2. Apesar de ter falhado tenebrosamente em Before I Wake e um tantinho em The Boy, 2016 está sendo muito agradável. Don't Breathe é mais um filme que merece ser apreciado até por quem não gosta muito do gênero: nos apresenta alguns sustos, violência, muita tensão, um vilão amedrontador e cenas muito bem construidas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Before I Wake

Direção: Mike Flanagan, 2016.
Before I Wake virou O Sono da Morte em sua tradução para o Brasil, e é mais um filme de terror que pode decepcionar muita gente. O longa conta a história de um casal, Jessie (Katie Bosworth) e Mark (Thomas Jane), que após perderem seu único filho, decidem adotar um garoto, Cody (Jacob Trembley). Esse garotinho possui um certo poder especial, que faz os seus sonhos, ou pesadelos, se tornarem reais, e mortais. Aos poucos, as coisas vão saindo do controle e é preciso saber mais sobre o passado de Cody para lidar com tudo isso.

O filme está sendo divulgado como terror, mas será que é isso mesmo? O roteiro possui algumas camadas bem dramáticas, mas o tom de fantasia gerado a partir do poder especial do garoto acaba possibilitando a realização de terror com jump scare ou cenas perturbadoras, o que eu achei bem interessante tentar mesclar esses tons de drama e terror no longa. Porém, mesmo gostando bastante do diretor Mike Flanagan (o mesmo de Oculus, 2013, e Hush, 2016), ele acaba deslizando em algumas coisas, principalmente no ato final. Fora isso, Mike conduz bem o projeto, acertando muito nas partes de terror e horror e na transição entre sonho e realidade. Ponto positivo para a maioria das cenas do "monstro" do filme, que embora alguns jump scares fossem bem óbvios, algumas coisinhas te agozinham um pouco. 

      O grande problema do filme está no ato final, mas não é apenas culpa do diretor. Existem outros profissionais que possam ter contribuído com isso, e creio que parte do elenco e dos roteiristas ajudaram bastante aqui. Para quem viu Room (2015) sabe que Jacob Trembley é um grande nome entre os atores infantis, e aqui ele não dá novamente um show porque o roteiro não ajuda em nada, e principalmente porque seus colegas de trabalho não tem expressão alguma. Katie e Thomas fazem um casal de luto, mas tão de luto que até os espectadores ficam tristes pela falta de carisma e sintonia dos dois. E o roteiro... Tem filmes que uma lição no final se encaixa bem, né? Aqui foi tudo por água abaixo. Alguém dormiu escrevendo os últimos minutos e matou o filme. Para quem viu The Babadook (2014), há no final uma mensagem muito interessante mas que deixa aberto a interpretações; já aqui tudo é muito bem explicado, como se o espectador fosse incapaz de compreender com a narrativa do filme, e a cada frase que alguém falava era uma revirada de olho. Acho que nos dez minutos finais eu acabei me expressando mais do que o casal principal. 

      (ALERTA SPOILER) No clímax, quando Cody está dormindo e tendo pesadelos, Jessie tem que enfrentar o monstro, chamado de Homem Cancro (que original). Antes de tudo isso, Jessie investiga o passado de Cody, cuja mãe morreu e gosta muito de borboletas, e nessa investigação ela descobre uma caixa com objetos da mãe, onde tem uma borboleta de pano. Enfim, Jessie leva essa borboleta consigo, e quando finalmente encontra o Homem Cancro, que tem uma aparência horrível, numa pele cor marrom esverdeada, careca, magro e com profundas olheiras, a moça entrega a digníssima borboleta de pano e abraça o monstro. Ainda no clímax, descobrimos que a mãe do Cody morreu de câncer (oooh!) quando ele era muito novo, e não consegue lembrar muito de sua aparência, mas em sua última visita ao hospital ela estava muito fraca, careca, magra e com olheiras. Pouco antes de acabar aparece o He-Man e diz que os verdadeiros monstros estão dentro da gente e precisamos lutar para vencê-los. A parte do He-Man é mentira, mas a mensagem é essa. Linda, mas não desceu para mim justamente por quebrar com o clímax do filme. 

      O Sono da Morte é um drama com tons de terror e fantasia que possui um clímax desastroso, com uma mensagem bonita mas num tom e no filme errado, e com um elenco lamentável, exceto Trembley. Possui um horror e terror bacanas, mas peca em tantas outras coisas que talvez não valha muito a pena.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Finding Dory

Direção: Andrew Stanton, 2016.
Dory, a peixe coadjuvante de Finding Nemo (2003) ganhou um filme solo, treze anos depois. Dessa vez, as aventuras de Finding Dory (2016) se passam um ano após os eventos do filme anterior, e Dory está vivendo tranquilamente no mesmo recife em que Marlin e Nemo, até que ela começa, remotamente, a lembrar de sua infância e seus pais, e resolve sair para procurá-los. A história é bem parecida com o primeiro filme? Com certeza. Mas ela funciona muito bem. Traz um roteiro bem amarrado, personagens secundários marcantes e divertidos e uma crítica à nossa sociedade à lá Pixar. 

Antes de todos os filmes da Pixar, há a exibição de um curta, e agora foi a vez de Piper, que conta a história de um pássaro filhote começando a descobrir o mundo sozinho, mas encontra um grande medo nas ondas do mar. É uma curta de superação, como a Disney/Pixar estão acostumadas a nos apresentar, mas além disso, Piper traz uma criação de mundo belíssima, com ricos detalhes, na penugem dos pássaros, na areia do mar, na água, no céu. No início do ano a Pixar lançou The Good Dinosaur, que apesar de não ter uma história muito boa pra contar, me espantou com a qualidade técnica da animação, muito por conta do aspecto da água no filme. Parece até que deixaram uma câmera da areia da praia e filmaram os pássaros e os detalhes da paisagem. 

Seguindo para Finding Dory, nós encontramos um ambiente muito familiar (para aqueles que viram Nemo, claro): o recife, os personagens, a rotina, etc. E volta e meia ele nos dá alguma referência ao longa de 2003, seja com uma aparição de personagem, alguma piada interna daquele filme, ou fatos que aconteceram nele e são explicados agora. O filme consegue introduzir uma nova história, com novos personagens, e ao mesmo tempo completar uma história anterior. Apesar disso, tudo continua muito familiar, e não apenas pelos personagens, mas sim pelas aventuras: atravessar o oceano, se perder, buscar ajuda, entrar em canos. O roteiro não arrisca em nada, fica em sua zona de conforto seguindo os passos do primeiro filme. Em relação aos personagens, além dos pais da Dory, nos são apresentados: Hank, um polvo; Destiny, uma tubarão-baleia; e Bailey, uma beluga. Todos os personagens são essenciais para o desfecho, e há pelo menos um que tem um arco muito interessante, e seria ótimo se a Pixar apostasse nele para fazer algo a mais.  

Novamente a Pixar critica a nossa sociedade, nos mostrando a visão das vítimas em prol da diversão do ser humano. Numa cena muito semelhante em outra do primeiro filme, vemos Dory e Hank tentando escapar de mãos de crianças, que se divertiam enquanto encostavam e pegavam em alguns peixes. Enquanto em cima da água o riso ecoava no ar, abaixo dela o pavor estampava a face dos animais. Vimos muito bem isso em Nemo (2003), onde barcos pesqueiros capturavam peixes, e a terrível Darla no dentista. Aqui o sentimento é dúbio, pois é apresentado para nós um local de recuperação de animais marinhos doentes, que são resgatados, recuperados e retornados ao mar, e ao mesmo tempo são explorados pela sua beleza e exoticidade. 

Procurando Dory não é a melhor continuação da Pixar, mas vale todo o tempo de exibição. Pixar retorna a sua zona de conforto, após apostar certeiramente no excelente Inside Out (2015), e erroneamente em The Good Dinosaur (2016). Divertido para os mais novos, e emocionante para os nem tão mais novos assim. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Nise: O Coração da Loucura

Direção: Roberto Berliner, 2016.
Nise da Silveira foi uma das primeiras mulheres brasileiras formada em Medicina, e iniciou uma revolução na psiquiatria brasileira e o tratamento com pacientes em hospitais psiquiátricos, e o filme conta um pedaço de sua história. O recorte dessa história que nos é apresentado aqui é de um período em que Nise volta a trabalhar em seu antigo hospital, só que em uma nova função, pois se recusou a utilizar em seu ofício alguns métodos de tortura para uma possível cura dos pacientes. A data é 1944, e o local é o Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Rio de Janeiro, mais precisamente no Engenho de Dentro – guardem esse nome. Nise é resignada para o setor de Terapia Ocupacional, onde os pacientes eram colocados para fazer as tarefas de funcionários do local, como limpeza e manutenção do ambiente. Observando todos os problemas dali, a nossa protagonista inicia uma revolução no tratamento dos pacientes.
            
A história dessa mulher é imensamente importante para o Brasil, e graças a muitas pessoas é que temos, hoje, um filme de alto nível para nos contar um pouco sobre ela. Vemos na ficção, tanto cinematográfica quanto literária, um crescimento muito grande de personagens femininas fortes, e é muito gratificantes observar a história de uma mulher real vir à tona nesse momento, e ser tratada com tamanho carinho. Se ano passado nós tivemos Que Horas Ela Volta? sendo um dos grandes filmes brasileiros, Nise: O Coração da Loucura não fica atrás não. O diretor traz uma simplicidade e uma delicadeza de Nise mesclada com a brutalidade dos hospitais psiquiátricos da época. O hospital (e o filme) é retratado como sujo, cinza e fúnebre até a chegada de Nise, que tenta trazer aos poucos um pouco de cor, luz e vida ao local.

            Na década de 1940, era muito comum o tratamento de pacientes em instituições psiquiátricas ser através da força, tortura, eletrochoques, etc. E o filme retrata isso muito bem, trazendo como vilões os médicos, homens, brancos, ricos, que se preocupam única e exclusivamente em dar alta para seus pacientes, sem se importar com os meios para chegar nisso. No início do filme temos uma cena em que um paciente é tratado com eletrochoques numa palestra, e Nise é a única pessoa que se incomoda com aquilo, que se sente mal em ver alguém ser torturado, enquanto os outros médicos, homens, brancos, ricos, acham o método muito inovador e eficiente. Os homens querem se livrar de seus pacientes o mais rápido possível, finalizando o seu procedimento com a lobotomia, e a mulher só queria que os pacientes fossem tratados como seres humanos, que apenas se comunicam de uma maneira diferente. Nise encontra na arte uma maneira de entender seus pacientes (ou clientes, como é colocado no longa), e seus clientes encontram na arte uma maneira de se comunicar com o mundo e reorganizar suas vidas. O hospital nos traz personagens secundários muito interessantes, artistas, pintores e mais do que isso, grandes pessoas que só precisavam de compreensão e compaixão.

            Nossa protagonista é interpretada pela excelente Glória Pires, que não surpreende, pois já é uma grande atriz, e novamente apresenta uma personagem forte, profissional e ao mesmo tempo carinhosa, humana. Nise foi real, seus clientes também, e as obras que eles deixaram vão além da realidade, partem para a irrealidade por conseguirem, após tanto sofrimento e invisibilidade, extrair de seu interior cores e traços que parte do caos completo até a pureza da natureza. Obras atemporais produzidas no Engenho de Dentro, não o hospital, mas sim o interior do ser, o coração em sintonia com o cérebro.

            Nise: O Coração da Loucura é um excelente filme que merece ser visto por todos. É delicado e brutal, mas vai além: é puramente humano. Trata do inconsciente humano, que é um tema extremamente complexo, de uma forma natural, compreensível. Nise da Silveira merece ser conhecida e reconhecida, sua história merece ser lida, e esperamos que esse longa converse com outras pessoas para revolucionar seus corações. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

El Club De Los Incomprendidos

Direção: Carlos Sedes, 2014.
O Clube dos Incompreendidos é um filme espanhol que quer ser muita coisa e acaba não sendo. O longa conta a história de Valeria (Charlotte Vega), uma adolescente que, após o divorcio dos pais, se muda com sua mãe para Madrid, e tem que se adaptar a uma nova escola e novos colegas. Após alguns acontecimentos, Valeria acaba tendo que comparecer a um grupo de apoio da escola, onde estão mais cinco jovens, durante todo o resto do ano letivo. O filme se desenrola a partir disso: uma nova cidade para descobrir, novos amigos para conquistar e a busca de sua identidade e lugar no mundo.


O próprio título já faz referência a um clássico dos anos 80 de John Hughes, O Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985), e o longa espanhol homenageia (ou imita) muito o original. Aqui são seis pessoas, mas ainda há o Clube, há os preconceitos a serem combatidos, as reuniões de (auto) conhecimento coletivo, e as amizades e romances inesperados. As cores do filme também lembram muito os anos 80, só que tudo mais limpo e atualizado para os anos 2010; mas a referência ainda é claríssima. As conversas e os próprios estereótipos são sugados dos Cinco e distribuídos nesse colégio em Madrid, perdendo certa originalidade espanhola, transformando o longa em uma versão de qualquer colegial norte-americano.


            Incompreendidos... lembra outra palavra de um filme colegial de sucesso: invisíveis. As Vantagens De Ser Invisível (The Perks of Being a Wallfower, 2012) aborda vários temas similares ao Clube dos Cinco, mas atualizado para uma nova geração com outro tom. O Incomprendidos não sabe ao certo qual é seu tom, e muito menos qual história quer contar. Há momentos que o longa foca na amizade do Clube, outros em um romance adolescente que parece um longo vídeo clipe, e outros em assuntos que permeiam vários filmes colegiais. Tendo como referência esses dois grandes longas, o filme espanhol acaba se perdendo no roteiro e no tom do filme, com pouca originalidade e muito pouco aprofundamento em questões importantíssimas que só vem à tona no final. (ALERTA SPOILER) Depois de muito romance adolescente, brigas bobas e pouca originalidade, no fim há uma fagulha de esperança quando há um beijo entre duas garotas, porém aquilo cai de paraquedas no filme e morre ali mesmo, não há conversa sobre aquilo e foi como se nunca tivesse acontecido. Outro assunto que o longa joga na cara e não aprofunda é sobre esquizofrenia, quando no final do filme nos é mostrado isso, mas também a conversa que segue é muito genérica parece não haver peso para a história.


            Certamente o diretor fez escolhas erradas ao conduzir as histórias que se entrelaçam e querer apresentar personagens demais. Incomprendidos é algo que poderia ser muito maior, mas acaba nadando nos mesmos assuntos sem trazer nada novo. Reflexões sobre amizade, mudanças, bullying, pressão familiar, preconceitos e tudo o que esse período conturbado que é a adolescência nos proporciona são vazias. Infelizmente, perderam uma chance de atualizar o Clube e conversar com uma nova geração de adolescentes que se sentem incompreendidos pela sociedade.